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O desafio do roubo de carga para as organizações e a sociedade brasileira

05/09/2018 em Artigo
*Artigo escrito por Gustavo Dietz, gerente de Segurança Corporativa da Souza Cruz, que já atuou em diferentes mercados como o farmacêutico e o de tecnologia. Gustavo já presidiu o Overseas Security Advisory Council (OSAC) e é diretor da ASIS – Chapter São Paulo.
Imagem retirada do Banco Rawpixel
O Brasil caminha a passos largos rumo à liderança de uma estatística que é motivo de constrangimento e preocupação. E pior: a participação do Rio de Janeiro nesta escalada tem sido decisiva. Em um ranking de 57 países, publicado em fevereiro pela Joint Cargo Committee, o Brasil aparece entre os 10 mais na modalidade criminosa do roubo de carga, ao lado da Síria e outras nações em guerra. O prejuízo, só em 2016, foi de R$ 1,36 bilhão. Outro dado estarrecedor: pela primeira vez em 15 anos, o Rio registrou mais roubos de carga do que São Paulo – o número é ainda mais alarmante se considerarmos que o Rio possui 38% do PIB de São Paulo, 15% de sua malha rodoviária e 17% de sua área geográfica.

O motivo da explosão destes índices é um só: organizações criminosas estão cada vez mais atuantes no roubo de cargas, transformando-o em fonte de financiamento. A engrenagem funciona da seguinte forma: quadrilhas miram cargas de alta liquidez e fácil distribuição. A negociação das mercadorias, por meio de atravessadores e comerciantes, capitaliza as quadrilhas para reinvestirem em outras modalidades criminosas, como compra de armas, expansão do narcotráfico e do contrabando de cigarros.

O cigarro é um dos bens de consumo mais roubados do país. Na Souza Cruz, líder no mercado de fumo e cigarros, o prejuízo em 2017 com roubo de carga chegou a R$ 100 milhões. Foram 280 milhões de cigarros subtraídos. Se fossem vendidos pela metade do preço, gerariam R$ 51 milhões de receita, quantia que daria para comprar 1.275 fuzis.

Os incidentes de roubos de carga da Souza Cruz subiram 72% em três anos: de 1.335 em 2014 para 2.301 em 2017, o que levou a empresa à marca de seis ocorrências diárias por todo o país no ano passado. Este salto se explica, em parte, por uma estratégia equivocada do Estado, que vislumbrou uma relação direta de causa e efeito entre aumento do tributo do cigarro e queda no consumo do produto. O resultado é que os consumidores, com poder de compra comprometido em função da crise e pelo alto preço do cigarro, migraram para o produto ilegal, que chegou a níveis inéditos: de 34% do mercado brasileiro em 2013 para 48% em 2017.

Com base nesta equação perversa, o valor agregado do cigarro torna-se cada vez maior, na mesma proporção de sua atratividade para o crime. O resultado é o recrudescimento da violência nas cidades, inundada por produtos ilegais e queda de arrecadação.

O roubo de carga gera três tipos de vítimas: a sociedade, incluídos aí milhares de caminhoneiros e motoristas de carga, que sofre com o aumento da violência. Já as empresas veem seu custo logístico aumentar e o lucro despencar, seja porque internalizam as perdas, seja porque repassam os gastos aos consumidores através dos aumentos de preço – sem falar na perda de competitividade e capacidade produtiva. Por fim, o governo deixa de arrecadar R$ 10 bilhões ao ano com o mercado ilegal, que poderiam ser investidos na construção de 102 mil casas populares, 5 mil creches e 19 mil Unidades Básicas de Saúde.

Para a Souza Cruz, a proteção de seus colaboradores e da sua carga são prioridades: a empresa está sempre revisando modelos de distribuição, além de investir em treinamento, suporte jurídico e psicológico para as equipes. Outra grande frente de atuação é a tecnológica. Os investimentos estão concentrados em tecnologia de rastreamento e monitoramento (CFTV e geolocalização), emprego de recursos ostensivos, treinamento e inteligência. Hoje a Souza Cruz já conta com um centro de expertise, que fornece informação para a tomada de decisões.

Estas iniciativas da empresa têm surtido efeito, mas dependem de uma agenda mais ampla, como um plano de segurança de longo prazo. Um dos grandes entraves do roubo de cargas é o Código Penal Brasileiro, que não está mais condizente com a realidade do país. As penas para o crime de receptação de mercadoria roubada são brandas, podendo resultar em pagamento de fianças irrisórias, além da possibilidade de o acusado poder responder em liberdade. Por fim, outro aspecto é que nas secretarias de Segurança Pública roubo de carga não é indicador de segurança.

Medidas estruturais só serão eficazes desde que acompanhadas de campanhas de conscientização. Se anos atrás havia a percepção de que adquirir produtos contrabandeados ou roubados era um crime de menor potencial ofensivo, as estatísticas comprovam que isso não se sustenta mais. Quem consome produto ilegal ou roubado tem responsabilidade na violência endêmica do país. Para este mercado, o Brasil definitivamente não conhece crise!

**Os artigos assinados são de total responsabilidade de seus autores, não representando necessariamente a opinião dos editores e da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro.

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